Ainda que a agenda ESG esteja mais na pauta das grandes empresas, as pequenas também precisam endereçar o assunto. Entenda o porquê.
O tema ESG, sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa, tem tomado conta do noticiário empresarial. Isso porque as grandes corporações estão olhando, cada vez com mais atenção e detalhe, para essa agenda, que agora impacta, inclusive, na decisão de investidores de onde alocar seu dinheiro, na opinião pública em geral e na escolha de carreira de alguns talentos.
O que ainda não se vê muito é como as pequenas e médias empresas lidam com essa temática, ainda que seja acessível também para esse tipo de negócio. “Não é só coisa de empresa grande”, afirma Richard Lee, especialista em ESG que ocupou o cargo de head de sustentabilidade da Ambev por quatro anos, até o começo de 2021. “Quando a gente fala sobre ESG, é sobre os impactos reais e potenciais, positivos e negativos, e mesmo a pequena empresa vai ter impactos proporcionais ao seu tamanho.”
Segundo o especialista, um bom caminho para os pequenos e médios empreendedores é começar com uma boa análise da mensuração de impactos da própria empresa. “Sem cair no modismo de ‘precisamos cortar o plástico e usar carro elétrico’”, diz, sem desmerecer a importância desses dois tópicos também relevantes na visão dele. “É uma questão de olhar para o próprio negócio, para a composição de pessoas, de produtos ofertados e o que isso gera de impacto para a sociedade.”
A partir desse diagnóstico, acredita Lee, é possível definir o caminho a ser traçado.
A verdade é que, quando se fala de ESG, e particularmente da vertente ambiental desse tema, dificilmente haverá dois planos de ação iguais para duas empresas, porque uma companhia não é idêntica a outra. Então, é realmente uma análise caso a caso, que a própria equipe pode fazer. “Os donos da empresa e quem está dentro do negócio são as melhores pessoas para dizer como ele funciona e o impacto que gera”, diz Lee, que ainda ressalta. “A falta de um técnico pode fazer diferença para enxergar adequadamente o impacto, mas vale lembrar que muito do conhecimento está disponível gratuitamente e o Pacto Global da ONU tem várias ferramentas que ajudam a priorizar, a chegar a um mapeamento melhor.”
Nesse sentido, consultorias de recrutamento executivo estão ajudando as pequenas e médias empresas a encontrarem profissionais que possam contribuir com a área de ESG. “Percebemos aumento na demanda por esse tipo de profissional em empresas de menor porte”, afirma Felipe Avena, sócio da UNI.CO.
Um passo de cada vez
Ainda que iniciar uma agenda ambiental seja factível para as empresas de menor porte, não se trata de uma tarefa fácil. “Não precisa fazer tudo ao mesmo tempo”, recomenda Lee.
Quando se olha para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) do Pacto Global da ONU, existem 12. “É um monte de coisa”, pontua Lee. “Se, para alguns ODS você sabe o que fazer e para outros não, está tudo certo. Você não precisa trabalhar nos 12 necessariamente. Pense no que faz sentido para a sua empresa.”
Uma empresa que trabalha com derivados de petróleo, por exemplo, pode pensar em começar a usar uma embalagem mais sustentável para seus produtos. Será esse mesmo o começo de um bom plano de governança ambiental? Lee afirma que talvez não seja esse o grande impacto – e como há recursos humanos e financeiros limitados em uma pequena e média organização, é importante analisar onde está o real impacto. “Às vezes a empresa começa seu plano de ação pela demanda da mídia e da sociedade, que é reduzir o plástico nas embalagens, mas esse pode não ser o melhor caminho para essa companhia.”
Talvez, nesse exemplo de Lee, o caminho seja conseguir fazer as coisas de forma transversal, como o respeito à diversidade e o uso racional do plástico em diferentes etapas. “Quando uma empresa começa somente pelo assunto que está mais quente no momento, pode deixar de fazer a importante pergunta que é ‘onde está meu maior impacto?’”.
União faz a força
As micro e pequenas empresas representam 99% dos negócios brasileiros, segundo dados divulgados recentemente pela Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia (Sepec/ME). Juntas, elas respondem por 30% de tudo o que é produzido no país.
É claro que, devido ao seu tamanho, as grandes empresas têm grandes impactos no meio ambiente, mas, a partir de uma visão mais sistêmica, as pequenas e médias são mais numerosas e esse impacto, somado, pode ser até maior que o das grandes. “Não vamos resolver os grandes problemas de carbono, de diversidade e economia circular só mexendo com as grandes”, afirma Lee.
Para ele, as grandes têm o papel de resolver seus próprios impactos e também ajudar os pequenos e médios empreendedores.
A Ambev, por exemplo, traz ações práticas nesse sentido. Uma delas é a parceria firmada entre a cervejaria e empresas de energia solar de Minas Gerais para disponibilizar energia limpa a bares e restaurantes. É uma energia renovável e mais barata. “Donos de bares e restaurante, que são pequenos empreendedores, dificilmente conseguiriam pensar em trabalhar com energia renovável”, comenta Lee. O que a Ambev fez foi investir na estrutura de energia renovável e passou a oferecê-la para os seus fornecedores. “É uma maneira prática e efetiva de trazer os pequenos negócios para a agenda da sustentabilidade, o que faz uma grande diferença no fim das contas”.
Regulamentação é questão de tempo
Duas das razões pelas quais as pequenas e médias empresas deveriam olhar atentamente para a governança ambiental são reputação e regulamentação.
Lee comenta que, em algum momento, haverá leis que vão obrigar todas as empresas, de qualquer tamanho, a terem práticas mais sustentáveis de consumo de água, energia e descarte de resíduos. “Vale se antecipar a isso”, diz.
Em paralelo, os consumidores já começam a perceber as práticas sustentáveis (ou a falta delas) nas empresas com as quais eles se relacionam. “Em outros países, muitos consumidores já tomam decisões de compra levando isso em conta, indo além de preço e qualidade”, pontua Lee.
Por fim, enumera o especialista em ESG, a prática sustentável tem relação com pensar na própria sustentabilidade do negócio a médio e longo prazo. “Cuidar de água na Ambev, por exemplo, não é só o certo a fazer ou algo que traga boa imagem para a empresa. A companhia trabalha com água, sua linha de produção depende de água de qualidade. Então, investir em água é investir na sustentabilidade do próprio negócio.”
Como está a agenda da governança ambiental na sua empresa? Fica um convite para a sua reflexão.